terça-feira, março 14

Adaptando-se: o cinema aprendendo com o teatro

Por Ricardo Avarih
avarih@ig.com.br

Algumas das que são consideradas as maiores obras de arte da humanidade são peças ou nasceram como. O teatro já lida com adaptações de idéias desde sempre, e se há muitos Peter Pan, Romeu e Julieta, Édipo Rei, Il Pagliacci, O anel dos Nibelungos e tal, é por que o texto cênico nasceu pra isso.
Mas o último citado é o culpado de muito do que conhecemos. Wagner, afora as diversas falhas de personalidade, era um crânio no jogo de fazer enorme o que era texto. Em “O anel dos Nibelungos”, ele pegou elementos da mitologia odinista germânica e fez aquilo que pode ser considerada a primeira adaptação Blockbuster de alguma coisa: grandiosidade, simplificação e planificação dos elementos originais, desvio para o modo de pensar recorrente á época (no que se refere às personagens, ele ignora os traços dos deuses e os tornou versões dos deuses clássicos da moda, afinal, classicismo era chique. Odin tem a personalidade de Zeus, Frigga a de Hera, e por aí vai. Até mesmo Sigfried virou um herói à grega, com direito a falha trágica e tudo).
O cinema nasceu quando a fórmula Wagneriana estava estabelecida no fim do século XIX. Podemos encontrar suas idéias na adaptação de “Drácula” que conhecemos como “Nosferatu”. Portanto, nada mais natural que o cinema nascesse com tal vocação. Isso firmou-se mesmo após as idéias de Mélies originarem o efeito especial e a sonorização começar a criar a linguagem específica do cinema.
No fim dos anos setenta, George Lucas e Steven Spielberg, com as bênçãos de Coppola, criaram o cinema de multidões, e a partir daí tornou-se impossível pensar em filmes sem milhares de dólares, público absurdo e segurança financeira. A quantidade de estúdios vendidos e falidos nos anos oitenta prova isto. Apesar de instruídos e talentosos artesãos, criaram um modo de filmar que foi imitado sem escrúpulos e competência. Nem todo mundo assistiu aos filmes de Akira Kurosawa e as adaptações que ele fez da literatura do sol nascente, nem entendeu o que toca no primeiro blockbuster da história, “O poderoso chefão”. E com isso nasceu o germe da crise de criatividade do cinemão atual, e praticamente todo arrasa-quarteirão de hoje em dia é fruto desta crise ( = necessidade de segurança financeira).
Em comum, toda adaptação busca condensar a sua fonte original destacando seus elementos mais simbólicos. Isso pode acrescentar chances inesperadas de melhora no original e a riscos que valem a pena. “King Kong” fica em uma posição estranha. É uma homenagem, feita por admirador confesso. Apenas o fato de Jackson nos ter poupado de recursos baratos para extrair lágrimas, o faz o diretor mais original a lidar com cifras tão grandes. E finalmente temos um macaco. As pessoas tem Discovery Channel hoje, e sabem quem foi Dian Fossey (lembram da Sigourney Weaver na cinebiografia?). Agora, Kong não tem uma loira apaixonante, mas sim um brinquedo, e Jackson usa o elemento novo da artista de “Vaudeville”, em homenagem ao teatro de então, para justificar que Kong não a torne apenas mais um petisco, numa sacada de respeito ao caráter dos grandes macacos.
Tenho que citar outra sacada: quando um personagem fala, aterrorizado, que o livro que está lendo (“O coração das trevas”, que foi adaptado como o obrigatório “Apocalypse now!” do Coppola criando algumas das regras atuais das adaptações) não é uma história de ação, e confirmam-lhe isso, estamos quase que falando do filme que assistimos. É transparência, como quando o diretor dentro do filme manda um ator no meio dos dinossauros para criticar os diretores, mas que casa bem para uma platéia acostumada à burrice.
Quando se trata de adaptar seriados, décadas de existência de um personagem ou livros extensos, as estórias em geral desrespeitam a cronologia, complexidade e a seqüência dos fatos em prol de um conto coeso para diletantes. Funciona em alguns casos, mas falha horrivelmente na maioria.
Vamos ao plano geral: pegamos aquilo que as pesquisas dizem ser lembrado pela maioria, enfiamos num filme com ar moderno, com atores sérios e sem roupas ridículas, eliminamos preconceitos ou incômodos de época até a exaustão estéril, fazemos a história com muito sal, misturando elementos mais do que torta de pós-natal e, claro, podadas as coisas cósmicas ou mirabolantes (ou você acha que dava para tornar crível que a Fênix de “X-men” nascesse pilotando um ônibus espacial em uma tempestade cósmica no cinema?). Isso é inevitável, visto a complexidade que estes possuem. De qualquer jeito, a transposição fidelíssima não adianta. A falta de cinema em “Sin City” incomoda.
A crise criativa de Hollywood não é limitada pelo gosto do público. É alimentada, mas não justificada, pelo saudosismo. Falta incerteza, tempero, olhar, curiosidade, ousadia, tirar um pouco de dinheiro dos diretores, falta sangue e calor ao invés de fornecimento de tecnotrecos. Sem isso, para cada “Senhor dos Anéis” ou “Os Outros” teremos dez “Nárnias”, “massacres da serra elétrica” ou “fantásticas fábricas de chocolate”. Isso enquanto não resolvem refilmar “Jeannie” ou “Os pássaros”.
Quer saber? Assistamos essas mediocridades pela internet para ter assunto e gastemos nosso dinheiro indo ao cinema quando realmente vale a pena, assistindo “O Jardineiro Fiel” e “A Noiva-cadáver”. Ou “O exorcismo de Emily Rose”, adaptado do livro que inspirou o roteiro de “O exorcista” e que desmistifica adaptações ao deixar-nos na mais medonha dúvida.
E jamais nos esqueçamos que a mesma crise bate á porta do teatro faz muito mais tempo. E que se há algo a NÃO aprender com o cinema, é os erros que o levaram a tal.

2 Comments:

At 6:32 AM, Blogger Alissandra Rocha said...

Ricardo, eu acho que não entendi seu ponto de vista, ou não peguei o paralelo que vc criou entre essas duas artes. É sobre teatro ou cinema que estamos falando?

Sociologicamente falando, quando vc diz: "O teatro já lida com adaptações de idéias desde sempre,(...) por que o texto cênico nasceu pra isso.", vc quer dizer que a função da dramaturgia é adapatar?

 
At 2:50 PM, Blogger Johnny Kagyn said...

Aff! Para variar eu passaria horas e horas discordando de tanta informação "incorreta". Mas só um exemplo:
"(...)nem entendeu o que toca no primeiro blockbuster da história, “O poderoso chefão”."

Tenha dó!

 

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