sábado, agosto 28

Voltando a pensar “um” teatro

Este artigo é apenas um pensar em voz alta. Não estou, neste artigo, criando conceitos para uso de outrem, mas sim recapitulando o que é teatro, e qual a função de cada um no teatro, para uso próprio. Este artigo é apenas o meu mapa, que desenho em linhas pouco precisas, quase que uma anotação em um diário pessoal.

Eu estive longe, quis manter distância, e sei que quase nada mudou. O teatro está lá, seu edifício (ás vezes imponente e muitas vezes precário), seus atores, diretores, dramaturgos, cenógrafos, iluminadores, contra-regras (todos ás vezes geniais e muitas vezes ordinários).
Mas que teatro é este que ainda “está lá”? Estão lá as modas, como resistir ao talento de uma ótima geração de comediantes de stand-up?, as companhias acomodadas em suas fórmulas de sucesso, os repetitivos “experimentalistas”, o teatrão burguês capitaneado por estrelas da tv, os musicais que não são daqui, as comédias de sempre e um ou outro “original grito” abafado e sem audiência (grito que pode surgir de qualquer uma das categorias listadas).

E quem é este que quer voltar? Tenho medo de me encaixar na categoria de repetitivo “experimentalista”, tenho ojeriza ao teatrão burguês, poderia até mesmo dizer que tenho alergia ao palco italiano, quero gritar de forma autônoma, mas sei que ainda tenho muito para aprender e experimentar. Até este ponto não constam grandes diferenças entre “o que foi” e “aquele que volta”. A diferença entre outrora e agora é que não sou mais aquele que respirava apenas teatro desde seus 13 ou 14 anos, nos últimos 3 ou 4 anos (mais exatamente desde que terminou a temporada de “Indispensável exercício sobre o nada”, onde anunciei para o ator Geovane Fermac que iria viver a vida real) experimentei ser um qualquer, vivendo a vida com suas dificuldades e conveniências.
Definitivamente não sou o mesmo e isso vai afetar a minha nova/velha maneira de pensar teatro, a vida real me contaminou. Feita a devida contextualização voltemos ao pensar um teatro.


Para começar tenho que pensar no lugar do ator, e com certeza em teatro este deve ocupar o lugar central, mas o lugar central não deve ser ocupado “de qualquer forma” ou “por qualquer motivo”. O lugar do ator é sagrado, portanto não cabe neste lugar o ator meio-termo tão em voga. O lugar central do teatro deve ser preenchido pelo ator santo, ou ator mártir, que é aquele que está por completo em cena, não à toa ou simplesmente por estar, mas porque tem que comunicar algo. O ator não deve se contentar em ser apenas instrumento para as idéias de outros, ao contrário, deve apropriar-se destas idéias e personificá-las, o ator deve ser a idéia em cena.

Agora, vício de origem, quero pensar sobre o lugar do dramaturgo/autor. O dramaturgo é mais um técnico do teatro, assim como o operador de luz, o contra-regra etc., porém quando acumula também a função de autor (o que é corrente, pouco usual é dramaturgo desempenhado apenas seu papel técnico) sua responsabilidade cresce. O dramaturgo/autor tem a responsabilidade de emitir idéias, sejam elas originárias de onde for e destinatárias “do que quer que” seja. Ao autor/dramaturgo cabe pensar de forma completa, sugerir a forma empenhando-se no conteúdo. Um pensador simplista, preguiçoso e superficial, por melhor dramaturgo que possa ser, criará teatro superficial e estéril. A função do dramaturgo/autor é fazer pensar, e para tal seu nível de empenho não pode se limitar ao corrente e lugar-comum.

Por último, mas não com menor importância, quero pensar o papel do diretor. O diretor é um protagonista recente nisto a que chamam de teatro, e chegando tão tarde à trama sua função não é criar essência, mas sim organizar o enredo para uma melhor compreensão. O diretor muitas vezes deve corrigir o dramaturgo (o técnico!), mas erra quando quer corrigir o autor. O diretor deve, sempre, orientar e corrigir (coisas distintas) o ator, mas erra quando quer atuar através do ator. O diretor acerta quando toma para si a criação de um conceito estético que sintetize iluminação, cenário, mise-en-scène e dramaturgia, mas erra quando se concentra em apenas um dos pontos ou ainda quando deixa elementos dispersos. Em resumo a função do diretor é a de criar um conceito estético e coordenar as demais áreas da confecção teatral.

Pensando o meu teatro, um rascunho.

Teatro de proximidade, onde ator/dramaturgo/diretor e platéia comuniquem-se sentimentalmente e debatam ideologicamente. Tudo parte de uma idéia, são fundamentais as sensações. O ator não é um replicante, mas sim um debatedor. O ator é santo, mas não é sagrada a sua morada. Todos os lugares estão aptos ao teatro. Teatro é para dois e para dois mil. Não se afirmam verdades, debatem-se idéias, caminhos... Um teatro reticente. Um teatro ávido pelo complemento de suas camadas ocas. Um teatro que é meu apenas quando já não me pertence.

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